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Terça-Feira, 21 de Outubro de 2014

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Deodato Wertheimer

Completa na próxima quinta-feira (15), o 78º ano da morte do médico Deodato Wertheimer. Ele tinha 46 anos de idade; nasceu em São Paulo a 2 de julho de 1889, concluiu os estudos secundários no Colégio Anchieta e, em 1907, matriculou-se na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, onde se formou em 1912. Viveu 17 anos em Mogi das Cruzes. Sua trajetória por aqui, mais do que vitórias e derrotas, serve para decifrar a vida local no início do século passado.

Antes, é preciso entender quem era Deodato Wertheimer e situá-lo no tempo. Em uma época em que as mulheres se limitavam aos afazeres domésticos, sua mãe Augusta de Paula Petit Wertheimer já era uma ativista à frente. Professora, dirigiu o seção feminina do Grupo Escolar do Sul da Sé em São Paulo e levantou-se para discursar perante o presidente do governo provisório em 1889.

Era uma republicana defensora dos direitos da mulher: “Dai-nos edifícios apropriados em número suficiente, onde funcionem as escolas, equiparai os nossos direitos aos nossos deveres e vigia com igual justiça o respeito para aqueles como o cumprimento destes, aliviai-nos, tanto quanto possível, das misérias da vida penosa, sede severos mas previdentes e nós vos daremos inteligências cultivadas, braços fortes, corações ardentes por tudo quanto é nobre, verdadeiros berços do patriotismo puro, sincero”.

Foi nesse ambiente que Deodato viveu até os 18 anos. Em uma São Paulo provinciana e que apenas começava a colher os frutos do boom cafeeiro. Com 18 anos, foi-se para a única metrópole que havia no Brasil: o Rio de Janeiro, capital federal por onde tudo passava e por onde circulava uma população de quase 800 mil habitantes – o dobro da São Paulo de então. O Teatro Municipal do Rio de Janeiro (1909) foi construído em 4 anos; o de São Paulo (1911) em 8.

Era, aos 24 anos, um jovem médico de hábitos cosmopolitas, que iniciava carreira na Santa Casa de São Paulo. Foi lá, certo dia de 1913, que atendeu a uma convocação: o catedrático do qual era assistente estava na Europa e uma família de Mogi das Cruzes precisava de seus préstimos. Veio para atender Josefina, de apelido ‘Finoca’.

Encontrou, na casa da Rua José Bonifácio, o patriarca Chiquinho (Francisco de Souza Franco); afável, apesar de pouco sorrir. Viu, ao redor da matriarca Chiquinha (Francisca de Melo Franco), os filhos Zeca (José de Souza Franco); Finoca (Josefina); Nenê (Benedita), Alice e Nonô (Leonor).

Era um ambiente no todo diverso daquele ao qual se acostumara a conviver. As interações comunitárias estavam presentes em cada momento. Chiquinho era um chefe político que deixava as questões rurais, basicamente as fazendas do Prejú (Suzano), da Capelinha (Serra do Itapeti) e da Volta Fria a cargo do filho Zeca. Ele próprio cuidava do antigo comércio que herdara do pai (José Franco de Camargo) e das relações políticas. Era o maior contribuinte de impostos da Cidade na qual, se não fosse prefeito, ocupava a presidência da Câmara.

Este ambiente cativou Deodato. Havia tertúlias, saraus e a falta de médicos; apenas um clínico para atender aos 18 mil habitantes. Era o dr. Álvaro de Souza Sanchez. Advogados havia 3, 1 dentistas e 2 farmacêuticos. E Nonô, filha do rico Chiquinho, era solteira.

Sim, o médico cosmopolita e a filha de Chiquinho casaram-se no ano seguinte – 1914. Para a família, Deodato levou a personalidade inquieta e proativa da mãe Augusta. E se entendia muito bem com o sogro; participava de tudo. Em pouco tempo já integrava os quadros do PRP, o Partido Republicano Paulista, hegemônico naquilo que a história hoje registra como “República Velha”.

Aliava às suas atividades clínicas uma permanente atuação comunitária, parecia estar presente sempre onde era requisitado e atendia à esposa e os dois filhos (Maria Aparecida nasceu em 1915, Luiz Gustavo em 1918) com préstimos de pai amoroso. Mas o grande evento ocorreu mesmo em 1919: por ocasião da terceira onda da Gripe Espanhola (pandemia que matou entre 20 e 40 milhões de pessoas em todo o mundo), Deodato liderou as atividades de atendimento aos doentes. E sofreu ele próprio as consequências: com diferença de uma semana, em junho de 1919, morreram a esposa Nonô e o sogro Chiquinho. A mesma Gripe Espanhola já tinha vitimado, em janeiro, o presidente da República Francisco de Paula Rodrigues Alves.

Pronto: nesse mesmo ano Deodato se elegeu vereador em Mogi com a maior votação, fez-se prefeito no ano seguinte (1920) e deputado dois anos depois (1922). Era uma liderança em ascensão e capaz para conviver com a nova realidade paulistana, gerada pela efervescência da Semana de Arte Moderna de 1922 e pela riqueza do café. Tinha origem intelectual assegurada pela mãe Augusta, vivência cosmopolita sedimentada no Rio de Janeiro e recursos vindos da herança conjugal.

Sua atuação política e o traquejo social abriam-lhe todas as portas. Em 1926 foi, com a mãe Augusta, padrinho da noiva do ano em São Paulo, Nair Coelho Netto, filha de Benedicto Coelho Netto. Inquieto e proativo, estabeleceu uma aliança com o capitão aviador João Negrão (herói da célebre travessia do monomotor Jahú) e percorreu, de avião, cidades como Mogi das Cruzes, São José dos Campos, Caraguatatuba e São Sebastião. Iam a busca de áreas para a construção de aeroportos. A cada chegada, Wertheimer e Negrão eram recepcionados pelas autoridades locais que o viam como os condutores do futuro.

Aliado do presidente da República Washington Luiz, ele tinha franco acesso à sede do governo no Rio de Janeiro, o Palácio do Catete. Tamanha exposição haveria, é claro, de gerar inimizades. Sobretudo políticas. E elas começaram a surgir, boa parte das quais oriundas da dissidência que levou à formação do Partido Democrático. Em Mogi, uma das maiores pelejas era com Mário Murta, correspondente local do jornal ‘Diário Nacional’, órgão do novo partido e que incluía, em seus quadros sob a direção de Paulo Nogueira Filho, gente como Mário de Andrade, Guilherme de Almeida e Sérgio Milliet.

Na edição de 29 de janeiro de 1929 o ‘Diário Nacional’ publicou, em destaque, fatos relatados por Mário Murta. O jornalista dizia que foi à sede da Prefeitura Municipal para renovar sua carteira de habilitação e cruzou com Deodato Wertheimer, a quem não cumprimentou. Em represália, o deputado teria dado ordens para vetar seu acesso à Prefeitura: “Não estando de acordo com essa ordem absurda, que aberra dos mais comezinhos princípios republicamos – publicou o jornal – protestou contra essa violência. Formou-se, então, grande balbúrdia no local, cresceu o escândalo e, quando melhor ia a ‘festa’ do chefe perrepista, surge na sacada com áreas de Júpiter, mas um Júpiter que frequenta botequins, o deputado Deodato Wertheimer. E, em altos brados, gesticulando como um possesso, diz ao sr. Mário Murta que sua entrada no edifício estava proibida porque, sendo ele o deputado, o presidente da Câmara, o presidente do diretório do PRP, o chefe absoluto, enfim, de Mogi das Cruzes, tinha que ser respeitado e venerado por todos os mogianos”.

Nada a se comparar, entretanto, com o que ocorreu em 24 de outubro de 1930: a rebelião da Aliança Liberal, apoiada pelo Partido Democrático, que levou Getúlio Vargas a derrocar Júlio Prestes e assumir a Presidência, insuflou os ânimos locais. A casa de Deodato Wertheimer foi depredada e ele se refugiou em sítio de amigos em Sabaúna. Ficou ali até se entregar e, preso, enviado ao Rio de Janeiro de onde seria extraditado para Portugal. Não foi para a Europa e nunca mais se recuperou. Passaria a viver em São Paulo com a segunda esposa e filhos. Desgostoso, vinha pouco a Mogi.

Em julho de 1935 foi internado no Hospital Santa Catarina. Morreria no dia 15 de agosto e, segundo o atestado de óbito firmado pelo médico Soares Hungria, foi vitimado por cirrose. Está sepultado no Cemitério da Ordem Terceira, anexo ao de São Salvador. O jazigo, há alguns anos, foi reformado por um neto, filho de Cida Wertheimer.

 

 

 

O melhor de Mogi

A Estrada do Beija-Flor, que parte da Mogi-Guararema e serpenteia pela Serra do Itapeti. É um passeio pela Mogi rural com tempo de admirar a mata e pensar na vida.

 

O pior de Mogi

“Bom dia, amigos. Resolvi jantar no Mogi Shopping (a parte nova está muito bonita) e tive uma surpresa ao receber a conta: R$ 1,00 a mais pelo gelo (5 pedras) e R$ 2,50 pelo potinho de queijo ralado. Que pena!” (Manira Andery).

 

Ser mogiano é...

....  ter ido nadar na piscina da Fazenda do Rodeio.

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