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Caleidoscópio

Acho muita graça de algumas preocupações nos dias atuais... Um exemplo? Mal começa o frio e, mesmo nos encartes de propagandas em revistas tidas como "sérias", lá estão as chamadas aos "cuidados redobrados" com os cabelos no tempo do frio. É um tal de profissionais (ou melhor, "hair stylists"!) dando dicas de como manter os cabelos e o couro cabeludo saudáveis durante os meses de temperatura mais baixa do ano por todo o lado, que chega a irritar! Água quente, água morna na lavagem; hidratação; ressecamento dos fios; processos químicos; freqüências de lavagens; como pentear, como escovar; usar cabelo preso? Solto? Meu Deus! Como se não houvesse necessidade de se cuidar muito mais do que há por dentro das cabeças, especialmente nesta época do ano.

Nada contra os especialistas da área de estética. É só uma observação que gostaria de compartilhar neste nosso "Ponto de Encontro". Digo isto porque, como professora, percebo que há um clima mais que especial nas salas de aula quando da ausência da luz solar... Creio, cada vez mais, no aumento da chamada "depressão de inverno". As pequenas mudanças de comportamento no frio (as chamadas "winter blues") são perceptíveis nos mais variados ambientes. Hoje acredito piamente que nos dias mais frios, há uma grande tendência ao recolhimento em si próprio, ao olhar até o fundo da vida... E quando se chega ao fundo de si, a vida nos oferta um caleidoscópio todo singular. E é preciso saber olhar em direção à luz para compreendê-lo.

Lembro-me de uma crônica de Cecília Meireles ("Os indícios da alma infantil"), onde ela relatava a reação de uma amiga – professora também! – ao receber presentes de seus alunos: "- Os presentes mais engraçados que eu já recebi de alunos foi, certa vez, na zona rural, um levou-me uma pena de pavão incompleta: só aquela parte colorida da ponta; outro, uma pena de escrever, dourada, novinha; outro um pedaço de vidro vermelho...

(...) O caco de vidro, continuou ela, foi o que mais me surpreendeu. Não sabia o que fazer com ele. Pus-me a revirá-lo nas mãos, dizendo à criança: "Mas que bonito, hein? Muito bonitinho, esse vidro..." Procurava, assim, provar-lhe o agrado que me causava a oferta. Ela , porém, ficou meio decepcionada, e, por fim, disse: "Mas esse vidro não é para se pegar, não... Sabe para que é? Olhe: A senhora põe-no assim, num olho, fecha o outro, e vai ver só: fica tudo vermelho... Bonito, mesmo!..."

Nesta época do ano, quem sabe aqueles que se recolhem estão recebendo das mãos do tempo um presente para enxergar um lado mais colorido de sua vida. Um presente diferente e ainda incompreensível.

 

 

 

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    [27.jun.2010] Frio na alma
    [20.jun.2010] Aparências
    [13.jun.2010] Um dedo de prosa...
    [06.jun.2010] Caleidoscópio

     

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