Na profundidade das palavras de Guimarães Rosa, gostaria de iniciar nosso Ponto de Encontro de hoje: "No que a cidade e o sertão não se dão entendimento: as regalias da vida, que as mesmas não são."
Junho chega e, com ele, as tradicionais Festas Juninas nos trazem uma outra festa particular, ainda que incompleta: a dos sentidos. Para a visão: o colorido de bandeirinhas, de tecidos floridos, de mesa posta e farta, as chispas das fogueiras, as danças, as luzes próprias dos mastros erguidos... Para o olfato e o paladar: toda a riqueza de um dos cardápios mais singulares da culinária brasileira, muito embora os rótulos de produtos industrializados tenham roubado mistérios e magias do preparo à apresentação final da maioria dos pratos... Para a audição: a quebra de "preconceitos sonoros" e o debruçar sobre modas de viola e músicas compostas (quem sabe?) ao pé do fogo, lá longe no tempo e no espaço...
Pois é, mas o tato ficou de fora porque o homem já não se lembra como afagar a terra e dela retirar a poesia, pura e simples, de uma vida em sintonia com o que é natural. O agradecimento pela fartura da colheita, a alegria de se estar entre amigos, a organização de uma festa "de verdade", onde um trazia a leitoa, o outro o frango, o outro o curau... Não se trata, aqui, de romantizar a vida no campo, mas de pensarmos um pouco sobre a forma com que o mundo moderno conseguiu "desmistificar" certos prazeres e anseios comuns a todo homem, mas sem nada colocar no lugar, ao menos para aquietar seu coração. Isto aconteceu (e muito!) com o Brasil...
O avanço tecnológico, a busca de degraus na escada do status social, a massificação da cultura, a globalização, a cegueira entre o profano e o sagrado, tudo, cada qual a seu modo, tem uma justificativa a oferecer na tentativa da explicação para os novos significados dos valores ultimamente aceitos e adotados pela sociedade. Mas, dentre todas estas incógnitas, quais aquelas que, de fato, têm se preocupado em indicar o caminho de volta que leve à harmonização de relacionamentos entre o homem e o ambiente? Digo ambiente, da forma mais ampla.
É esta harmonia que trará sentido à lógica e à magia de se pisar e, sobretudo, de se respeitar o chão do cotidiano de outros terrenos. Trará, também, sentido ao conhecimento dos espaços que nos cercam. Ao por quê do campo e da metrópole, do "caipira" e do "homem da cidade", da tecnologia e da crença em seres fantásticos, moradores dos resquícios de nossa matas e que ainda passeiam ao luar...
Enquanto isto, há quem continue a dançar ao som da country music, sem notar qualquer diferença.