Principal          |           Assinatura          |           Classificados          |           Expediente          |          Contatos          



 
 
  • CRÔNICA - FERNANDO CATELAN

  • 13893

    Eram 20:00 h de sete de agosto de 1993. Ana, prestes a completar setenta e um anos, jazia enferma no leito de morte, assistida em tudo pela nora Lúcia, pela prestimosa irmã Augusta e pela solícita vizinha Maria Cláudia. Ana sofria há dois anos e meio de câncer e a metástase, do tumor primário no ovário esquerdo, se espalhara rapidamente por todo o organismo da anciã, atingindo seus orgãos vitais, tendo chegado, há coisa de uma semana, também a seu cérebro. Ana respirava com enorme dificuldade e profusas bagas de suor brotavam de seu semblante lívido. De quando em quando, Lúcia enxugava-lhe o suor da face com uma toalha, que, nas últimas horas, vivia trocando, pois o tecido rapidamente se encharcava. Vez ou outra, Ana entremeava o som gutural de seus estertores com palavras desencontradas e quase ininteligíveis que somente a nora mostrava-se capaz de decifrar. Em dado momento, a moribunda segurou com sua mão esquerda o braço direito de Lúcia com a pouca força que ainda lhe restava e implorou:

    - Cha... o ho... do... cen... que que... des... paz!

    - O que foi que a Dona Ana disse, Lúcia? – quis saber Maria Cláudia, que não havia compreendido as palavras sussurradas pela moribunda ao pé do ouvido da nora

    - Não tenho muita certeza, Maria Cláudia, mas se entendi bem minha sogra quer que eu chame o homem do centro. Disse que espera a vinda dele para descansar em paz...

    Nestor, o neto predileto de Ana, deixara o quarto onde a avó agonizava momentos antes. Mostrava-se aquele rapaz marcado pelo sofrimento desconsolado com a sorte da avó e, juntara-se às pessoas caras à anciã que se aglomeravam na acanhada sala de estar contígua ao aposento de dormir de Ana. Guardava o moço silêncio absoluto, e, sentando-se na poltrona vermelha que ficava a um canto da peça da habitação, deixou-se comover com as lembranças que juraria cultivar mesmo com o desaparecimento de sua avó. Assomava-lhe à mente agora a jactância que sua avó Ana deixava transparecer ao recordar-se de seu nascimento. Quando, deixando os folguedos de infância por um momento de lado, o menino Nestor aparecia na casa da avó para filar um café requintado, com direito aos pães em forma de pombinhas que a mulher que agora se finava preparava com carinho, não raro ouvia da boca de Ana uma história que, embora repetida à exaustão, não cansava de apreciar, enquanto, faminto, devorava as delícias preparadas pela avó:

    - Sabe, meu neto, quando você nasceu o nonno e a nonna vieram de São Paulo para te ver e então eu e o seu avô, que Deus o tenha, tivemos uma conversa séria com eles. Seu avô queria ser chamado de nonno, porque seus pais eram italianos, mas eu não queria ser chamada de nonna, porque nasci em Minas Gerais e meu sangue é índio. Sua nonna também não queria ser chamada assim, pois os pais dela eram portugueses, mas seu nonno fez pé firme em ser chamado de nonno porque era filho de italianos. Aí eu disse que como você ia morar com a gente e eu é que ia ficar tomando conta de você enquanto seu avô e seus pais trabalhavam quem decidia era eu. Assim, os pais da sua mãe ficaram como os nonnos e eu e seu avô avós mesmo!

    continua na próxima semana

     

    [Envie um comentário]    [Imprimir]
  • ANTERIORES
  • [29.jul.2010] 13893
    [22.jul.2010] 13893
    [15.jul.2010] Esquema
    [08.jul.2010] O último reduto
    [01.jul.2010] O último reduto

     

    INFORMAÇÃO

    Darwin Valente

    Evaldo Novelini


    SOCIAL

    Silene da Cunha Pinto

    Anderson Magalhães


    CRÔNICA

    Chico Ornellas

    Gracila Greco

    Amanda Moraes

    Nelson Albissú

    Fernando Catelan

    Mauricio de Sousa

    José Sebastião Witter

    Eduardo Zugaib


    ARQUIBANCADA

    Gerson Lourenço


    PUBLICIDADE

    O Diário de Mogi - Rua Ricardo Vilela,  568 - Centro - Mogi das Cruzes - SP - CEP: 08710-150 - Fone: (11) 3524-2400