Numa tarde abafada de verão, o tempo virou de repente e uma rajada de vento varreu a cidade.
Repreendendo os cabelos nos grampos, com alívio, a avó comentou com o avô:
- Vai chover!
Ainda transpirando em bicas, o velho enxugou o suor da testa, com o braço, e respondeu:
- Tá precisando!
- Já pra dentro, menino! - gritou para o neto.
Em tempo, o pequeno entrou, pois logo telhas voaram para todo lado.
- Deus me acuda! - suplicou a avó, encolhida de medo, dentro da casa.
- Não precisava tanto! - reclamou o avô em relação à tempestade.
Num instante, a avó pôs a panela para colher a goteira, que pingava sobre o sofá. Para não pegar umidade, o avô levou a televisão para o quarto. A avó colocou a caneca em cima do relógio da sala, mesmo assim o cuco emudeceu depois da chuva. A bacia ficou responsável pela goteira sobre a estante de livros. Avô e avó corriam pra lá e pra cá, mas não davam conta de tanta goteira. A casa virou um rebuliço. O forro, cheio de água, vazava pelas juntas das tábuas. Com tanta correria, nem viam o neto fazendo verdadeiro malabarismo para colher duas goteiras, ao mesmo tempo, com uma só chaleira:
- Opa! - o menino colhia o pingo da direita.
- Opa! - vez do pingo da esquerda
- Opa! - novamente o pingo da direita crescia.
- Opa!
De repente, assim como veio, a tempestade partiu. Em seguida, o sol voltou como se durante o dia inteiro não houvesse parado de brilhar.
Então, o velho correu ao depósito de material de construção, com intenção de comprar umas telhas, para consertar o telhado. O neto, acostumado a enrabichar, foi pulando atrás.
No depósito, os olhos de menino se enchiam com tudo que via:
- Que isso, vô?
- Pra que aquilo?
- E aquele ali?
- O que isso?
- Como é que...
Irritado com a chuva e não dando conta de responder tantas perguntas, o velho se impacientou:
- Pára quieto! Deixa eu comprar as telhas.
Aí, o menino deu uma escapadela da mão do avô e, cheio de curiosidade, perdeu-se nos labirintos formados por pilhas de materiais e produtos de construção. Tudo queria ver, saber, especular. De repente, no mostruário de banheiros, multiplicou-se nos vários espelhos, de muitos tamanhos e modelos. Maiores ou menores, todos os meninos eram iguais a ele. Mesmo rosto, orelha, camiseta, calção...