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  • CRÔNICA - NELSON ALBISSÚ

  • Conto de uma tarde de verão

    Numa tarde abafada de verão, o tempo virou de repente e uma rajada de vento varreu a cidade.

    Repreendendo os cabelos nos grampos, com alívio, a avó comentou com o avô:

    - Vai chover!

    Ainda transpirando em bicas, o velho enxugou o suor da testa, com o braço, e respondeu:

    - Tá precisando!

    - Já pra dentro, menino! - gritou para o neto.

    Em tempo, o pequeno entrou, pois logo telhas voaram para todo lado.

    - Deus me acuda! - suplicou a avó, encolhida de medo, dentro da casa.

    - Não precisava tanto! - reclamou o avô em relação à tempestade.

    Num instante, a avó pôs a panela para colher a goteira, que pingava sobre o sofá. Para não pegar umidade, o avô levou a televisão para o quarto. A avó colocou a caneca em cima do relógio da sala, mesmo assim o cuco emudeceu depois da chuva. A bacia ficou responsável pela goteira sobre a estante de livros. Avô e avó corriam pra lá e pra cá, mas não davam conta de tanta goteira. A casa virou um rebuliço. O forro, cheio de água, vazava pelas juntas das tábuas. Com tanta correria, nem viam o neto fazendo verdadeiro malabarismo para colher duas goteiras, ao mesmo tempo, com uma só chaleira:

    - Opa! - o menino colhia o pingo da direita.

    - Opa! - vez do pingo da esquerda

    - Opa! - novamente o pingo da direita crescia.

    - Opa!

    De repente, assim como veio, a tempestade partiu. Em seguida, o sol voltou como se durante o dia inteiro não houvesse parado de brilhar.

    Então, o velho correu ao depósito de material de construção, com intenção de comprar umas telhas, para consertar o telhado. O neto, acostumado a enrabichar, foi pulando atrás.

    No depósito, os olhos de menino se enchiam com tudo que via:

    - Que isso, vô?

    - Pra que aquilo?

    - E aquele ali?

    - O que isso?

    - Como é que...

    Irritado com a chuva e não dando conta de responder tantas perguntas, o velho se impacientou:

    - Pára quieto! Deixa eu comprar as telhas.

    Aí, o menino deu uma escapadela da mão do avô e, cheio de curiosidade, perdeu-se nos labirintos formados por pilhas de materiais e produtos de construção. Tudo queria ver, saber, especular. De repente, no mostruário de banheiros, multiplicou-se nos vários espelhos, de muitos tamanhos e modelos. Maiores ou menores, todos os meninos eram iguais a ele. Mesmo rosto, orelha, camiseta, calção... ¾ ele conferia. Melhor fazer uma careta. Todavia os outros meninos também faziam. Então piscou, pulou, virou, e os outros em tudo o imitavam. Mostrou a língua e todos também mostraram. Tentou ir embora. ¾ Que sorte! Nenhum dos meninos o seguiu. Aí concluiu ser melhor correr e agarrar-se à mão do avô, para ele não ir daquele lado e lá ficasse sabendo que, além de telhas, pregos, tijolos, azulejos e areia, o depósito de material de construção também vendia meninos, igualzinhos a ele.

     

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