Um encontro com a natureza no Parque das Neblinas

Ponte sobre o Rio Itatinga, que recebe a água cristalina de 404 nascentes existentes no interior dos 6.100 hectares de área do Parque das Neblinas, em Mogi
Ponte sobre o Rio Itatinga, que recebe a água cristalina de 404 nascentes existentes no interior dos 6.100 hectares de área do Parque das Neblinas, em Mogi

DANILO SANS (textos) e
EISNER SOARES (fotos)

Para auxiliar na recuperação ambiental de uma área de 6.100 hectares, o Parque das Neblinas – localizado na Serra do Mar, entre Mogi das Cruzes e Bertioga – conta com o envolvimento dos vizinhos. Quase toda a mão de obra é composta por moradores de Taiaçupeba. Mateiros do Distrito desbravam as trilhas, guardas protegem a área e uma equipe de culinaristas apresenta delícias feitas a partir de espécies de plantas e frutos cultivadas dentro e no entorno da reserva ambiental.
Após ter perdido quase 85% da mata nativa para a carvoaria que abastecia a extinta siderúrgica Cosim, a fazenda que compõe o Parque das Neblinas foi comprada pela Companhia Suzano. Em 1966, a empresa passou a explorar o eucalipto existente na região para a produção de celulose. Em 1988, é instituída uma política de uso sustentável com proteção aos recursos hídricos e incremento da biodiversidade. Em 1999, a papeleira cria o Instituto Ecofuturo, que passa a gerenciar a área como uma unidade de conservação de uso sustentável.
A partir de então, a região passou a sofrer com a extração ilegal do remanescente da palmeira juçara – espécie nativa da mata atlântica ameaçada de extinção. A juçara (de onde é retirado o palmito) é fundamental para garantir a sobrevivência de 80 espécies de animais durante o período em que a mata tem menos alimento disponível, conforme explica o diretor de Sustentabilidade do Instituto Ecofuturo, Paulo Groke.
O projeto de reintrodução de sementes de juçara teve início em 2004, com a oficialização do Parque das Neblinas, envolvendo a comunidade do entorno. Produtores rurais de Taiaçupeba passaram a conservar matrizes da palmeira, cujo fruto é comprado, processado e transformado na polpa utilizada nos programas do Parque. Desde 2004, mais de 6 milhões de sementes foram reintroduzidas na área. “Não existe mata atlântica sem juçara”, acrescenta Groke.
O Instituto também envolveu antigos extratores de palmito e ex-caçadores no processo de recuperação ambiental do Parque das Neblinas. Hoje, esses mateiros – que conhecem cada canto da reserva – trabalham como guias e guardas-parque e também auxiliam em projetos de pesquisa, levando cientistas pelo interior da mata até o encontro com animais como o muriqui, o maior primata das Américas.
Um desses mateiros recebeu uma “câmera trap”, equipamento utilizado para capturar imagens de animais selvagens, e conseguiu entregar aos pesquisadores dados importantes sobre o comportamento de espécies como a onça e o veado dentro da reserva.
Além dos 13 funcionários próprios, o Parque também conta com 30 parceiros no trabalho de recuperação e educação ambiental. Quase toda a equipe é composta por moradores de Taiaçupeba. “Hoje, metade dos recursos gerados aqui dentro voltam, de alguma forma, para a comunidade, quer seja na contratação de serviços ou na compra de materiais e equipamentos”, completa o diretor.
Até mesmo os ingredientes utilizados nas receitas servidas dentro da reserva, como a taioba (popularmente conhecida como orelha-de-elefante), são adquiridos de pequenos produtores de Taiaçupeba. O tempo tem demonstrado que o plantio de eucaliptos não significa a extinção de outras formas de vida e ensinado a grandes exploradores que é possível combinar o lucro e o uso sustentável de recursos naturais.

Gastronomia é ferramenta para a preservação

Coalhada, pão de queijo, bolo de milho, queijo branco, suco de cambuci e de juçara, café com leite. A chef de cozinha Renata Souza Ronchi, de 29 anos, acorda cedo para preparar todas essas delícias que recepcionam os visitantes do Parque das Neblinas, logo pela manhã. No almoço, um misto de receitas inovadoras e tradicionais, com ingredientes de produtores locais – e cardápio preparado no fogão à lenha. Ela ensina a importância da preservação ambiental da forma maneira mais gostosa que existe.
Renata comanda a equipe da empresa Natural da Mata, de Taiaçupeba, composta por seis cozinheiras. O trabalho na cozinha tem um objetivo bastante nobre: sensibilizar por meio dos sabores da mata atlântica. Com a mistura dos ingredientes, alguns colhidos nas hortas das próprias culinaristas e outros comprados de pequenos produtores do Distrito, ela estreita a relação do visitante com a floresta.
Com a ajuda da irmã, engenheira florestal e especialista em plantas alimentícias não convencionais, Renata cria receitas com os frutos nativos da mata, como o mousse de cambuci e o brigadeiro da juçara (cujo suco tem gosto e cor de açaí). Também fazem muito sucesso – sobretudo entre os vegetarianos – os pastéis recheados com taioba.
Ela se emociona ao falar da reação das crianças – na maioria estudantes do ensino fundamental público de Mogi das Cruzes – ao experimentarem pela primeira vez o sabor das plantas. “A gastronomia é uma ferramenta muito importante para a preservação. Nós nos esforçamos muito para melhorar o gosto que vem da floresta. As crianças saem daqui com a consciência de que não se pode destruir uma árvore”, destaca a chef, que já trabalhou como monitora ambiental no Parque, é formada em gestão ambiental, gastronomia e estudante de biologia.
Os pratos servidos na reserva ambiental têm toques de grandes nomes da gastronomia brasileira, como a banqueteira Mazzô França Pinto e o chef Alex Atala.

Projeto mudou a vida de Marcos

Marcos deixou as atividades ilegais e hoje trabalha pela preservação da mata atlântica
Marcos deixou as atividades ilegais e hoje trabalha pela preservação da mata atlântica

Típica da região da mata atlântica, a palmeira juçara não consegue se regenerar após a retirada do palmito e, por causa da extração ilegal, corre risco de extinção. Pela sua importância para o ecossistema, a espécie é amplamente cultivada no Parque das Neblinas, onde o auxiliar de manejo florestal, Marcos Joé Rodrigues Prado, de 32 anos, ganhou a oportunidade de deixar a vida de explorador ilegal para se tornar um dos responsáveis pela preservação da espécie.
Morador de Taiaçupeba, Marcos conta que atuou durante seis anos com a extração do palmito, no interior da reserva ambiental. “Eu estava sem serviço e precisava ganhar dinheiro. Era bicho feio. A gente (ele e mais dois companheiros) ficava de 10 a 15 dias dentro do mato e saia de lá com 200 potes de palmito”, relata. As entregas do produto a um receptor – também irregular – rendiam a ele o equivalente a R$ 800 por semana. Para nunca ser pego, conta, ele “entrava quieto e saia calado” da mata e nunca extraía o palmito em sítios.
Hoje, Marcos faz um pouco de tudo no Parque. Da juçara, ele só retira o fruto, utilizado nas receitas servidas aos visitantes, garantindo, assim, a sobrevivência da palmeira. Ele também auxilia na manutenção de equipamentos e na gestão da reserva. “Eu tirava o palmito porque precisava, era uma forma de me sustentar. Hoje, eu já não tenho mais por que fazer isso”, comenta.
Marcos conta que a atividade ilegal ainda acontece, já que o controle é muito difícil de ser feito – por causa da mata fechada e da habilidade dos mateiros. “Isso não vai acabar enquanto tiver gente precisando”, finaliza.
A experiência fez dele um dos maiores conhecedores dos 6.100 hectares do Parque, tanto que Marcos ajuda pesquisadores a encontrarem espécies da fauna e da flora que se escondem mata adentro. A capacidade dele de se encontrar na mata fechada surpreende. “Agente se orienta fazendo picadinha, sendo guiado pelo rio, por topo de morro, fazendo marcação em árvores”, revela.

Estudo aponta 1.253 espécies da fauna e flora

O manacá da serra enfeita caminho dentro do Parque com as suas belas flores
O manacá da serra enfeita caminho dentro do Parque com as suas belas flores

O número de espécies da fauna e flora existentes no Parque das Neblinas é 24% maior do que se imaginava, conforme mostra inventário estruturado pelo Instituto Ecofuturo, entidade mantida pela empresa Suzano Papel e Celulose e responsável pela administração da reserva ambiental.
O levantamento, feito em parceria com a consultoria Seleção Ambiental, cataloga todas as pesquisas realizadas no Parque no período entre 2002 e 2016 e integra o projeto de atualização do Plano de Manejo da área, além de trazer informações sobre a biodiversidade da área, apontar lacunas de conhecimento e contribuir para direcionar e fomentar novas pesquisas no local.
No total, foram analisados 58 estudos, que identificaram 1.253 espécies de fauna e flora. Esse número representa um incremento de 24% da riqueza de biodiversidade conhecida até então pela equipe do Parque das Neblinas. Entre as espécies mais representativas estão o muriqui – o maior primata das Américas -, a onça-parda, a anta e o veado. A reserva também possui identificadas 531 espécies de flora, 244 de avifauna, 159 formigas, 92 aranhas, 35 mamíferos de médio e grande porte, 35 borboletas, 28 besouros, 18 morcegos, 16 peixes, 16 abelhas, 8 répteis e 5 crustáceos. Dessas, 23 apresentam algum grau de ameaça de extinção, mas, devido aos esforços de gestão, são consideradas protegidas na reserva. As 404 nascentes ainda garantem a água cristalina que corre pelo Rio Itatinga.
O diretor de Sustentabilidade do Ecofuturo, Paulo Groke, adianta que os próximos estudos poderão avaliar o impacto causado pelos 2,5 mil visitantes anuais do Parque. “A princípio, tudo indica que a gente opera abaixo da nossa capacidade de carga. Ou seja, temos condições de receber muito mais visitantes, sem causar impacto significativa à flora e fauna”, avalia, destacando que o número permitido de visitantes só irá aumentar se as pesquisas apontarem para essa possibilidade.
Também por meio do inventário, foi possível mapear os parceiros da reserva para promoção e intercâmbio de conhecimento, e garantir a continuidade do relacionamento. Hoje, o Instituto Ecofuturo e o Parque das Neblinas possuem parcerias com a Secretaria de Meio Ambiente do Estado de São Paulo, com as prefeituras de Mogi das Cruzes e Bertioga, com as ONGs The Nature Conservancy (TNC) e WWF Brasil, as instituições de ensino Universidade de Mogi das Cruzes (UMC) e UNESP de Botucatu, além do Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais (IPEF).
“O Plano de Manejo mostra a importância de parcerias técnicas e científicas não apenas com outras instituições que atuam no segmento socioambiental, mas também das universidades. Algumas das informações mais importantes no nosso inventário foram trazidas por pesquisas feitas por profissionais da UMC”, acrescenta Groke.
Para o biólogo Rodrigo de Almeida Nobre, sócio-diretor da Seleção Natural, o trabalho desenvolvido pelo Ecofuturo relacionamento ao apoio e fomento a estudos é um diferencial. “O Instituto poderia não ter nenhum incentivo a pesquisas e trabalhar apenas para a conservação da mata atlântica. Fazer e apoiar estudos são compromissos diferenciados, que devem ser reconhecidos”, relata.
Nobre afirma que é raro encontrar reservas particulares que tenham sido inventariadas tão intensamente para propósitos de conservação, desvinculados de processos de licenciamento ambiental, como aconteceu no Parque das Neblinas.

E tudo começou com eucaliptos…

A bióloga Michele atravessa passarela sobre a vegetação intensa
A bióloga Michele atravessa passarela sobre a vegetação intensa

A estrada perde o asfalto nas proximidades da entrada do Parque das Neblinas, uma reserva ambiental que há quase 30 anos deixou de ser uma fazenda de eucaliptos para se tornar um exemplo de recuperação ambiental. Na entrada, duas construções: um alojamento destinado a pesquisadores e a casa onde fica a administração, esta última com uma canteiro na entrada, uma varanda e um ar de residência do interior.
De carro, é possível chegar ao local onde os visitantes são recepcionados. O espaço, com mesas de madeira e banheiros delicadamente decorados, é preenchido pelo cheiro do café fresco e da vegetação que começa a ficar mais densa. Ao lado, um pequeno auditório com uma televisão e 32 cadeiras coloridas, que recebem alunos do programa socioambiental desenvolvido pelo Instituto Ecofuturo, com crianças de escolas municipais de Mogi das Cruzes. Desde 2010, o projeto já recebeu mais de 4 mil estudantes, conforme revela a bióloga Michele Martins, de 36 anos, analista de projetos da entidade.
Na frente do fogão aquecido à lenha, fica a porta de entrada para a primeira trilha, acessada por uma ponte de cordas, com piso de madeira e cerca de 50 centímetros de largura. A estrutura faz o visitante se sentir dentro da floresta. Em um dos trechos, a ponte tem apenas a largura de um pé. Todas as trilhas são bem demarcadas e contam com sinalizações para o visitante não se perder.
“As trilhas são estreitas para o visitante sentir a selva”, ressalta Michele, que guia a reportagem de O Diário por dentro do Parque. Ainda durante a caminhada, é possível perceber a presença do Itatinga pelo som que o rio emite, mas não dá para vê-lo por causa da mata.
Logo à frente, a água cristalina e o leito largo do rio enchem os olhos do visitante. Para atravessá-lo, existe uma ponte de madeira, construída na década de 1970 para o escoamento da produção de madeira. Michele lembra que na época em que a área era utilizada para a exploração de carvão, nas décadas de 1940 e 1950, cerca de 200 famílias moravam dentro da mata, que contava com escola, comércio, e toda estrutura de uma vila de trabalhadores.
Há outras trilhas a serem feitas, diversos pontos do Parque que não são possíveis de conhecer em apenas um dia de visita, além de atividades novas, como o camping e uma trilha de bicicleta até uma cachoeira, que serão abertas em breve.

Visitas devem ser feitas por meio de agendamento prévio

A visita ao Parque das Neblinas só é permitida após agendamento, que pode ser feito pelos telefones 4724-0555 ou 4724-0556. Os valores para visitação variam de R$ 40 para as trilhas autoguiadas até R$ 95 para quem quiser fazer canoagem pelo Rio Itatinga. Há ainda opções para ciclistas e trilhas monitoradas – em uma delas, a do Mirante, é possível avistar o mar. A viagem ao local, saindo do Centro de Mogi das Cruzes, leva pouco mais de uma hora.

Para chegar, o motorista precisa seguir pela Mogi-Bertioga (SP-98) até o quilômetros (km) 63 e acessar a Mogi-Taiaçupeba (SP-102) – o Parque fica no km 85 da Mogi-Taiaçupeba, mas, como a via passa por dentro do Distrito, o motorista precisa ficar atento para se manter na rota.
Chegando à região central do Distrito, é preciso seguir rente à sede da Sociedade Amigos de Taiaçuepab (SAT), onde há uma placa sinalizando o caminho para o Parque das Neblinas. É só seguir em linha reta, por mais 15 minutos, até a portaria do Parque.
Mais informações também podem ser obtidas pelo e-mail: parquedasneblinas@ecofuturo.com.br

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